Não é todo dia que você faz uma viagem com o objetivo de visitar uma plantação. Ou de conhecer o processo produtivo de uma fábrica – no caso, da bodega. Pois é isso que você fará em Mendoza. Com alguns aditivos. Os vinhedos são lindos. E ainda, no horizonte, está a Cordilheira dos Andes nevada. Em cada bodega você repetirá sempre o circuito plantas-tanques de fermentação-barris de carvalho. Mas nunca falta o grand finale: degustar um tinto aqui, um branco ali. Ou seja, é turismo bucólico, contemplativo, de grandes paisagens. Com ótimos vinhos e uma leve sensação de torpor o dia todo, comida boa, a preços camaradas. E você nunca mais vai segurar uma taça sem se lembrar dela. 

1. O tipo de uva é só o primeiro segredo de um bom rótulo
Malbec, Chardonnay, Merlot, Cabernet, Torrontés. Tudo isso é nome de uva (ou cepa) plantada em Mendoza, província no centro-oeste da Argentina, colada na cordilheira/fronteira com o Chile, e que produz mais de 70% de todo o vinho argentino. Cada uma delas tem seu sabor próprio e um vinhedo com folhas e cachos únicos. Dá para adivinhar qual uva é só de olhar a planta. Logo no primeiro passeio – no meu caso, à bodega Tapiz, em Luján de Cuyo, a 15 quilômetros da cidade de Mendoza – você percebe que não é à toa que tem tanto enófilo por aí. Quem explica tudo com primor, e uma paixão que a fez famosa nas redondezas, é Carolina Fuller, guia da visitação gratuita da Tapiz. Carolina só recebe uma família por vez, apenas quatro por dia. E é das poucas que te deixam degustar, além dos vinhos engarrafados da casa, aquele que está amadurecendo dentro do barril. Então você compara com o da garrafa – e é incrível sentir na língua que, quanto mais ele envelhece, menos ácido fica.

2. A harmonização com a comida é uma das principais diversões do enófilo
O restaurante da Tapiz tinha boa fama, mas rumamos logo para a vinícola-butique Ruca Malén – normalmente se almoça na segunda ou terceira bodega do dia. A grande estrela era a comida. Pela janela do restaurante de quatro mesas via-se um enquadramento inspirador de um gramado impecável, seguido por vinhedos e pelas pontas da cordilheira. Com cada um dos cinco pratos do menu – canapé, pizzinha de berinjela com pesto de tomate seco, salada de beterraba caramelizada com queijo pecorino, medalhão de filé mignon com legumes, mousse de doce de leite -, um vinho certo. Branco, tinto, até de sobremesa, das diversas linhas da casa. Lia-se num folheto por que as notas de limão do canapé destacam a frescura do vinho branco, ou o caramelo da beterraba, a doçura do Malbec. Tudo por 75 pesos. E as taças ficavam na mesa, assim você podia provar várias combinações para ver que existem regras básicas, mas, afinal, tudo é uma questão de gosto. O que geralmente é igual pra todo mundo é que não se sai de um banquete desses 100% sóbrio.

Por: Claudia Carmello
Fonte: Viajeaqui.