Preconceito, Senhor Redator, não tenho. Nenhum. Pelo menos com comida e vinhos. Minha luta, tantas vezes declarada, é entender os enólogos, mas nunca deixei de culpar a mim mesmo pelo apoucamento desta sensibilidade fronteiriça. Um deles, e não deve ter sido injusto por consciência, escreveu a esta coluna ensinando como consultar dicionários. Assim, seria talvez mais fácil a correta e boa distinção entre enofilia e enologia. Ou, melhor: entre os amigos e os estudiosos da ciência do vinho.

Ora, Senhor Redator, e nisto não vai nenhum complexo de inferioridade deste pobre homem da Rua da Frente: nada pode ser mais complicado do que texto de enólogo, daí a minha convicção de que não se trata de coisa de amigo, mas de cientista. E me nego a reconhecer numa linguagem desprovida de afeição qualquer sinal de amor ao vinho. Aquela mania de dissecar camada a camada, ou cheio a cheiro, como prefira, o gosto e o aroma dos vinhos, é coisa de quem é pobre da rica beleza das coisas simples.

Há exceções – como não aceitá-las? – mas enólogo quase sempre é inculto, longe do humanismo que é indispensável a todas as manifestações do espírito. São textos apenas bem alinhavados, entre o que copiam, refogam ou requentam, e querem impingir o que seu próprio artificialismo denuncia. Como se a ninguém fosse dado perceber o pedantismo falso com que se deixam embalar pelo frio dos Alpes ou os raios de sol de uma primavera que inventam, tudo embrulhado no papel de seda do pastiche inventado.

Outro dia recebi via e-mail o texto de um douto enólogo desta pobre aldeia de Felipe Camarão ensinando ao leitor como harmonizar os vinhos, tintos ou brancos, secos ou suaves, com o milho verde nas suas formas joaninas: a canjica, a pamonha e o mungunzá, coisa assim. Ou o pé-de-moleque diante do qual seria injusto qualquer tipo de discriminação. O cientista ainda teve o requinte de dizer que para as experiências é preciso ser uma pessoa livre dos preconceitos e da resistência, um ser de alma superior.

É ai, Senhor Redator, que a coisa emperra na cabeça deste pobre cronista. Gosto de vinhos e se não sei o mistério das suas sagradas entranhas, paciência. E gosto muito das comidas à base de milho, de uma canjica bem feita, da pamonha ainda morna, e do bolo de milho. Mas não consigo nem ao menos imaginar sem café quente e forte. Ora, qual nada! O enólogo sugere pamonha com um Lambrusco Rosso Amabile. O milho verde assado com um sauvignon blanc ou, se tanto, um Riesling Renano, e assim vai.

Milho cozido que se faz raspando as espigas antes de cozinhá-las? Nem queira saber: só com um vinho ‘seco e mineral’. E eu – juro! – nem sabia que existe vinho mineral. O velho Pé-de-Moleque, aquele da infância? Deve ser degustado com alguns cálices de Vinho do Porto, de preferência um Tawny. E o velho e bom mungunzá, como há de ser tratado à mesa do São João? Acredite: com um licor de vinho tinto ‘e tânico’. Não confundir com titânico, Senhor Redator. Seria um desastre. Arre égua!

Fonte: Jornal de Hoje.